Quando Uma Celebração Pertence a Todos

Uma das coisas que mais me fascina nas celebrações africanas é a forma como elas raramente pertencem apenas a quem está a celebrar.

A família não é apenas convidada. A família faz parte da celebração.

Quando falo de culturas africanas, faço-o sabendo que existe uma enorme diversidade entre países, regiões, etnias e famílias. Não existe uma única forma de celebrar. Mas há algo que encontro com frequência e que me parece profundamente bonito, o forte sentido de comunidade.

O casamento ou qualquer outro momento importante da vida raramente é vivido de forma individual. Há rituais que pertencem aos mais velhos. Há músicas que só certas pessoas da família conhecem. Há receitas que atravessam gerações. Há histórias que só fazem sentido quando todos se sentam à mesma mesa.

Eu que cresci numa família cabo-verdiana, aprendi isso desde muito cedo. Nos momentos importantes, há sempre alguém a ajudar, alguém a cozinhar, alguém a organizar, alguém a cantar, alguém a receber quem chega.

Existe uma presença coletiva muito forte, uma sensação de que cada celebração pertence a todos. E talvez seja precisamente essa sensação de pertença que torna estes momentos tão especiais.

Mais do que uma celebração, as memórias que ficam para sempre

Quando penso nas celebrações que mais me marcaram, não me lembro apenas da decoração, da comida ou da música. Lembro-me das pessoas, das conversas que aconteciam na cozinha e das e gargalhadas e risos partilhados, dos abraços demorados de saudades que o tempo não consegue amenizar. Das histórias repetidas vezes sem conta e que, ainda assim, todos queriam ouvir novamente. Porque, no fundo, são esses momentos que transformam uma festa numa memória. São as pessoas que dão significado à celebração.

E é precisamente por isso que comecei a refletir sobre algo que vejo acontecer com alguma frequência.

 

O que se perde quando a família está a Ajudar?

Em muitas celebrações, especialmente nas comunidades onde o espírito de entreajuda é muito forte, a família acaba por assumir uma grande parte da organização.

É quem cozinha, é quem monta as mesas, é quem recebe os convidados, é quem resolve os imprevistos, é quem garante que tudo corre bem.

E embora esse gesto nasça quase sempre do amor e da vontade de contribuir, por vezes pergunto-me: quanto da celebração essas pessoas conseguem realmente viver?

Porque quando a família passa o dia inteiro a gerir tarefas, acaba por não conseguir estar plenamente presente, e isso parece-me uma perda enorme, não apenas para quem trabalha, mas para toda a experiência.

Porque aquilo que torna uma celebração verdadeiramente especial não são apenas os elementos visíveis, é a presença viva das pessoas que a compõem. É um tio que conhece a letra de todas as músicas, um elemento da família que sabe exatamente quando fazer um brinde inesperado, é uma tia ou avó que guardam na memória um ritual que atravessou décadas. É a família a ser família.

 

Uma Reflexão que me acompanha

À medida que vou construindo o meu caminho nesta área, tenho refletido muito sobre o tipo de experiências que gostaria de ajudar a criar. Ainda estou no início desta jornada e continuo a aprender todos os dias, mas há algo sobre o qual tenho cada vez mais clareza, acredito que um dos papéis mais importantes de quem organiza um evento é permitir que as pessoas que mais importam possam viver plenamente aquele momento. Este é o papel que quero desempenhar, deixar a família livre a viver os vários momentos importantes e especiais.

Que a mãe da noiva possa emocionar-se sem estar preocupada com horários, que o pai possa conversar com os convidados sem estar a resolver problemas, que os avós, os tios e os primos possam simplesmente estar presentes. Que a família possa criar memórias em vez de gerir tarefas, esta uma das maiores formas de cuidado que um evento pode oferecer.

 

Porque no final o que fica são as pessoas

As flores passam, a música termina, as luzes apagam-se, mas as memórias permanecem.

E quando penso nas celebrações africanas, aquilo que mais me inspira não é apenas a beleza das tradições, é a forma como elas colocam as pessoas no centro de tudo. Porque, no final, uma celebração memorável não é aquela que correu de forma perfeita, mas sim aquela em que todos sentiram que pertenciam àquele momento, e isso começa, quase sempre, pela família.

No próximo artigo, vou começar a mergulhar nas culturas dos países PALOP, um ponto de partida muito especial para mim, porque é aí que estão as minhas raízes.

Vou partilhar histórias, tradições e pequenos detalhes que tornam cada cultura única, na esperança de que possamos descobrir juntos novas formas de olhar para os eventos multiculturais.

Até lá, obrigada por estar desse lado.

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Latest Comments

Nenhum comentário para mostrar.